Medicina de precisão decreta fim da era de tentativa e erro

Medicina de precisão decreta fim da era de tentativa e erro

Análises moleculares já são utilizadas no dia a dia do atendimento oncológico, resultando em tratamento individualizado, com mais eficácia e menos efeitos colaterais

As estratégias de combate ao câncer estão avançando em velocidade sem precedentes. Uma das principais razões para isso é que cada vez mais a ciência consegue identificar o tratamento ideal para cada paciente e tipo específico de tumor, melhorando os resultados e reduzindo efeitos colaterais. Essa busca pela individualização do tratamento, conhecida como medicina de precisão, já é uma realidade consolidada na oncologia, de acordo com especialistas do Hospital Sírio-Libanês. Com vários novos métodos e tecnologias à disposição, em especial nas áreas de genômica e biologia molecular, os cientistas conseguem analisar os tumores de forma mais individualizada e precisa. “Isso nos permite descobrir, nas células de câncer, mutações ou alterações que podem ser bloqueadas por medicamentos específicos, que chamamos de terapias-alvo”, afirma Marcelo Cruz, oncologista do Sírio-Libanês em São Paulo.

Segundo o especialista, além de possibilitar diagnósticos extremamente precisos, as análises genômicas dos tumores permitem que os médicos encontrem “alvos” para os tratamentos, isto é, genes com mutações específicas, que têm ligação com o avanço do câncer. Quando esses alvos estão presentes, os especialistas podem escolher medicamentos sob medida para aquelas características genéticas. A evolução das tecnologias genômicas levou a constantes descobertas de novos alvos, resultando em terapias mais específicas, de acordo com o especialista. “No passado, quando esses alvos não eram conhecidos, as terapias eram testadas por tentativa e erro. Com a medicina de precisão, além de aumentar a chance de sucesso dos tratamentos, temos melhores condições para os testes, o que acelerou incrivelmente a descoberta de novos medicamentos.”

“A medicina de precisão permite não apenas diagnosticar a doença, mas compreendê-la do ponto de vista molecular, isto é, determinar quais são as exatas alterações moleculares que levam as células a se comportarem de forma aberrante, desencadeando o desenvolvimento do tumor”, afirma o diretor-geral do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, Artur Katz. Os testes moleculares são utilizados como base para a escolha do tratamento, segundo ele. “Muitas vezes não é preciso recorrer à quimioterapia, pois há drogas que atuam de forma precisa nas alterações moleculares identificadas.”

De acordo com Fernando Santini, também oncologista do Sírio-Libanês em São Paulo, para cerca de 40% dos tumores de pulmão já é possível encontrar um alvo que pode ser afetado diretamente com uma droga específica, reduzindo os efeitos colaterais. “Isso pode nos levar, por exemplo, a dispensar uma quimioterapia desnecessária. Quando oferecemos um tratamento igual para todos, não sabemos quem realmente vai se beneficiar”, diz.

A evolução na medicina de precisão é constante. No Sírio-Libanês, já são usados testes moleculares capazes de avaliar mais de 300 alterações em amostras de tumores. Equipamentos de última geração analisam os dados e produzem um laudo que é utilizado para selecionar a terapia ideal para o paciente. “Essa evolução é acompanhada pelo avanço de novas áreas fundamentais para o futuro da oncologia, como a bioinformática, a patologia molecular e a oncogenética”, afirma Santini.

Radioterapia avança e mira direto no alvo

A radioterapia para o tratamento do câncer está evoluindo graças aos avanços técnicos que permitem o aumento da precisão na irradiação dos tumores, de acordo com Rafael Gadia, coordenador da radioterapia do Hospital  Sírio-Libanês, em Brasília. Essa precisão viabiliza tratamentos mais curtos e menos agressivos aos pacientes. “As novas técnicas possibilitam concentrar doses maiores de radiação no tumor sem aumentar os efeitos colaterais”, afirma o especialista. “Hoje, no Sírio-Libanês, podemos tratar tumores localizados em áreas como cérebro, próstata, pâncreas, fígado, ossos ou pulmão com 1 a 5 aplicações de radioterapia sem necessidade de anestesia ou cortes com a mesma eficácia de uma cirurgia. Além disso, a associação da radioterapia com doses altas por aplicação potencializa o efeito de terapias como a imunoterapia, aumentando a chance de destruir o tumor”, explica Gadia.

Patologistas ganham novos recursos

Tradicionalmente, os patologistas utilizam microscópios para analisar finas lâminas produzidas a partir de amostras de um tumor, a fim de identificar características do câncer e definir o tratamento. Mas é possível fazer bem mais com os novos métodos de patologia molecular, segundo Leonardo Testagrossa, coordenador do laboratório de patologia do Hospital Sírio-Libanês. “Nós analisamos amostras do tumor em equipamentos especiais, utilizando técnicas de biologia molecular, em busca de alvos terapêuticos. Isto é, em busca das mutações genéticas que ativam o desenvolvimento daquele tumor”, diz. Muitas vezes, segundo Testagrossa, as alterações genéticas identificadas pela patologia molecular indicam suscetibilidade do tumor a determinada droga.  “Isso possibilita uma terapia individualizada para aquele paciente cujo tumor apresenta um determinado perfil genômico.”

Oncogenética favorece detecção precoce

Uma das áreas que mais evoluem na medicina é a oncogenética, que envolve o mapeamento genético familiar, com foco nos tipos de câncer que podem ter origem hereditária, como tumores de mama, ovário e próstata, entre outros. De acordo com a médica Maria Isabel Achatz, que coordena desde 2018 o departamento de Oncogenética do  Hospital Sírio-Libanês, o conhecimento prévio da predisposição para aqueles tipos de câncer pode ajudar na prevenção e na detecção precoce, aumentando as chances de cura. “Cerca de 10% dos tumores são hereditários, e a presença de uma alteração específica em determinado gene pode elevar a 90% o risco de desenvolver câncer”, afirma. Hoje, os testes genéticos evoluíram muito e permitem a identificação precisa dessas alterações. “Se o diagnóstico for precoce, o tumor é retirado e, muitas vezes, podemos evitar radioterapia, quimioterapia ou cirurgias de grande porte.”

Atendimento personalizado é tendência

O atendimento oncológico do  Hospital Sírio-Libanês em Brasília é cada vez mais personalizado, segundo a médica Daniele Assad. Em sua especialidade – o câncer de mama e os tumores ginecológicos –, uma das principais ferramentas para esse atendimento individualizado é a avaliação genética. “Para as pacientes com câncer avançado, dispomos de painéis que avaliam as mutações genéticas no tumor. Isso permite identificar alvos terapêuticos com precisão, para um tratamento personalizado com base nessas alterações”, diz. A avaliação genética traz benefícios até mesmo para as pacientes que não têm câncer avançado. “No atendimento, não nos preocupamos apenas com o tratamento, mas também em avaliar os riscos hereditários. Com a análise genética, podemos aconselhar a paciente em ações preventivas para evitar um segundo tumor, por exemplo.”

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